Uma criança no inferno
Novembro 18th, 2007
Eu não contei para vocês, mas um dia desses eu passei nas Sendas e gastei uma pequena fortuna com 5 livros daqueles de R$ 9,99. E Uma criança no inferno é um deles.
O primeiro volume da trilogia narra o período entre 4 e 12 anos da vida de Dave Pelzer, um dos casos mais extremos de violência contra a criança nos Estados Unidos.
O drama autobiográfico começa na década de 60, quando a mãe do pequeno David começou a criar jogos que botavam Jigsaw no chinelo. A lista a seguir mostra como o alcoolismo ajudou castigos usuais em jogos brutais de tortura:
- –> Castigo do isolamento no canto do quarto - Até aqui tudo certo né? Até a supernany recomenda. Mas continua…
- –> Castigo do isolamento frente ao espelho - ela esfregava o rosto da garoto no espelho e fazia ficar em frente. Evoluiu para a obrigação de recitar o mantra “Eu sou um menino malvado” antes de ficar imóvel olhando para o espelho. Os irmãos começam a se afastar, temendo serem punidos também.
- –> Buscas impossíveis - Enquanto o pai estava no trabalho, ela botava os filhos para procurarem algum objeto perdido. Culminou com um bofetão quando o garoto, meses de busca depois, esqueceu o que estava procurando.
- –> Bêbada, a mãe quebra o braço de David ao esbofetea-lo. Finge que nada aconteceu e simula uma queda do beliche para leva-lo ao hospital.
Até aqui a trajetória de violência é mais ou melhos a conhecida. Só que atualmente os profissionais de saúde são treinados para identificar esse tipo de coisa. Mas nos anos 60/70, o médico que atendeu aquele menino percebeu que a fratura não fôra acidental e acabou tratando o guri sem mais comentários, enviando-o de volta para o filme de terror que a sua vidinha estava se transformando:
- –> Ele começa a estudar e apesar de ir bem no colégio, a mãe insistia que ele havia “envergonhado a família e merecia severa punição”. Segundo a mãe, ele teria que repetir a primeira série - mesmo ele tendo chegado em casa com um trabalhinho cheio de estrelinha/carilhas felizes. Ficou permanentemente proibido de ver TV e jantar. Foi encarregado das tarefas domésticas e alojado no porão.
- –> A família costumava acampar no verão. Naquele porém ele foi deixado com uma tia. A tentativa de fuga foi punida num turno de 24 horas do trabalho do pai, com uma sessão que além da baita surra, incluiu a lavagem da boca com sabão e a proibição de falar sem ser solicitado.
- –> No Natal a mãe diz que Papai Noel havia enviado uma carta dizendo que ele era um menino malvado e por isso não iria receber presentes como os irmãos. O pai dá desenhos de colorir para o garoto e tem uma discussão com a mãe que o acusa de desautoriza-la na educação do “garoto”, termo que a família passa a usar para referir-se a David algum tempo depois.
Isso está horrível né? Piora. Só neste capítulo, a mãe ainda o proíbe de participar do grupo de escoteiros por “ser um mau menino” e o queima nas chamas do fogão.
Mal ou bem, ela ainda tinha algum medo do pai das crianças. Mas com a impunidade se confirmando, ela consegue levar toda a família para o comportamento doentio. O livro continua, mostrando a solitária luta do garoto pela sobrevivência enquanto a mãe aprimora os jogos.
Eu só sei de uma coisa: Desde que eu li este livrinho, Dave Pelzer é o meu herói. Por que virar uma pessoa decente depois de “uma infância fudida” dessas, como diria o Capitão Nascimento, só um cara digno de farda preta.
E para a mãe, eu só imaginava o saco para ela. E para o fraco do pai, que não botou moral na história. E para os frouxos dos vizinhos, parentes e amigos que passaram OITO ANOS vendo a criança ser torturada e NÃO SE COÇARAM!!! Tá certo que nem se falava muita coisa sobre violência doméstica na época, mas a criança aparece toda quebrada e não foi nada? O cara saia para trabalhar e encontrava o filho todo roxo e nada tinha acontecido? Peralá né?
O saco era pouco. Acho que nesses casos a vassoura era necessária também!
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13 Comments Add your own
1. Nuno | Novembro 18th, 2007 at 2:25 pm
2. Thera Fajyn | Novembro 19th, 2007 at 11:02 am
Isso é comum no mundo inteiro né? Será que tem jeito? O caso desse livro a mãe era alcoólatra, no do Nuno deprimida… Alcoolismo dá para fugir dele, mas e depressão?!
Credu!
3. Enio Luiz Vedovello | Novembro 19th, 2007 at 11:31 am
4. Anonymous | Novembro 19th, 2007 at 4:44 pm
5. Anonymous | Novembro 19th, 2007 at 5:04 pm
ass: “o Namorado Malvado”
6. Pato_Loko | Novembro 19th, 2007 at 7:03 pm
Brincadeira. Mas é muuuuito complicado saber que, certamente, ele não é, nem foi nem nunca será o último a passar por esse tipo de situação, né não?! o_O
7. Thera Fajyn | Novembro 19th, 2007 at 9:35 pm
Eu sei que postando anônimo você vai acabar me obrigando a editar a configuração de comentários, e isso não era uma coisa que eu esteja lá com muita vontade de fazer. Você é mesmo um Namorado muito Malvado! Espera só eu botar as minhas teclinhas no seu bulógue!
Putz, agora até o Pato sabe das minhas intimidades. Só falta a minha mãe aparecer por aqui!
8. Thera Fajyn | Novembro 19th, 2007 at 9:41 pm
Namorado Malvado também é cultura: Roderéuis “Norman Bates”? Você faz a namorada malvada feliz com curiosidades curiosas que a curiozice dela ainda não alcançou!
Pato, eu espero que não tenha mais crianças na situação desse garoto não… Tipo, a mãe desse quebrou, queimou e esfaqueou o moleque! E ainda fez isso só com ele, o que é um pouco pior, pois quando o agressor é assim com todo mundo você ainda tem parceiros, mas uma agressão focada assim? Credo!
9. valmir junior | Julho 17th, 2008 at 7:11 pm
10. aritmante | Agosto 5th, 2008 at 9:56 am
Verdade isso? Que pena. Eu sei que tem um livro onde ele continua a história, mas não cheguei a encontra-lo…
Mas obrigada pelo acréscimo!
11. Aritmante » Um long&hellip | Novembro 26th, 2008 at 3:13 pm
12. Mírian | Dezembro 20th, 2008 at 5:59 pm
13. Thera Fajyn | Dezembro 22nd, 2008 at 3:05 pm
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